Helô Sanvoy fricciona o texto a ponto de torná-lo invisível, submerso, ausente. O que vemos são suas marcações, seus apontamentos, seus intervalos, suas ênfases; uma escritura subliminar que se estabelece enquanto imagem. Na sobreposição de camadas, na translucidez do suporte, no rastro que marca uma passagem, transparece todo vestígio da não-presença sobre a superfície das coisas.

 

Ivair Reinaldim. Catálogo "Novíssimos", 2011.

[...] Os desenhos Sem título executados a nanquim sobre papel vegetal de diversos tamanhos e tonalidades, registram as marcações de leituras empreendidas pelo artista sobre textos diversos; são constituídos por linhas de pequenas extensões e com espessuras diferentes, por registros de paginações cujos textos foram subtraídos, por formas geométricas de intensa presença plástica que intensifica a pulsante e dinâmica estrutura construtiva dos trabalhos, organizada em torno da linha que cria colunas, blocos, espaços e sequências de manchas gráficas de preto sobre branco. Helô Sanvoy age com certa economia de ações, mas age também pelo excesso e pela saturação por meio da acumulação de muitos desenhos em um só, da superposição de páginas cujas transparências revelam as páginas antepostas criando a memória de um palimpsesto, ilegível, mudo, sem palavras, mas cheio de ritmos musicais, de espessuras de pensamento, de lembranças e de apagamentos. Diante deles me pergunto: seriam anotações, citações, epígrafes, destaques ou rasuras que o artista-leitor promoveu sobre os textos e que guardam os vestígios de suas leituras? [...]

Divino Sobral.

Fragmento do texto "Até onde ver ou até onde ler?". 

Vista da exposição "Dialetos", Museu de Arte Contemporânea do MS (MARCO), 2012.

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